414 anos: a capital maranhense pelo olhar de quem faz arte

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Airton Marinho e Wal Paixão mostram, por meio da arte, diferentes formas de enxergar a cidade

São Luís completa 414 anos nesta terça-feira (8). Conhecida como “Atenas Brasileira”, a capital maranhense é lembrada por seus casarões, azulejos, festas populares e manifestações culturais. Mas, para quem transforma a cidade em arte, existem muitas outras formas de contar essa história.

O Portal Difusora News ouviu dois artistas maranhenses de diferentes gerações: Airton Marinho e Wal Paixão. Em suas obras, São Luís aparece como memória, cultura, movimento e, principalmente, como gente.

Inspiração à primeira vista

A relação de Airton Marinho com São Luís começou aos 14 anos, quando deixou Vitória do Mearim e chegou à capital em uma lancha. No Portinho, uma imagem chamou sua atenção: as velas dos barcos ancorados sob o pôr do sol. “Para mim, foi uma das mais belas paisagens que já vi.”

Na Praia Grande, os azulejos dos casarões provocaram outro encantamento. Depois vieram as festas populares, danças, lendas e manifestações de matriz africana. A cultura maranhense acabou se tornando matéria-prima de sua produção.

“Isso me encheu de riqueza e de uma grande vontade de transformar essa história em uma grande obra de arte, o que consegui fazer através das minhas xilogravuras.”

Airton conta que sua paixão pela arte começou ainda na infância, quando desenhava nos cadernos da escola e até na areia molhada depois da chuva. Aos 15 anos, teve contato com a xilogravura em uma tipografia. Mais tarde, uma oficina na Universidade Federal do Maranhão consolidou sua relação com a técnica.

No início dos anos 1980, uma bolsa do projeto Bolsa Arte, da Funarte, marcou o início oficial de sua carreira. Hoje, ele vê São Luís como parte inseparável de sua obra.

“Acho que o meu trabalho e a minha arte não seriam os mesmos se eu não morasse em São Luís, se eu não tivesse a paixão que tenho por esta cidade.”

A cidade que se move

Nascido em São Luís, Wal Paixão cresceu entre as ruas do Anjo da Guarda, o Centro, os salões de reggae, rodas de tambor e bumba-meu-bois. Designer de formação, deixou a carreira profissional há cerca de 12 anos para se dedicar às artes.

“A inquietação da alma me levou às artes. Já não encontrava sentido naquilo que produzia como designer.”

Para Wal, não houve um momento específico em que São Luís passou a fazer parte de sua arte.“Não há um momento determinante. Foi um entranhamento mútuo.”

Embora o bumba-meu-boi esteja presente em sua produção, o artista percebeu outro elemento recorrente: o movimento. “Em geral, busco a ação; retratar o instante. Esse conceito, me parece que é algo que está em nós enquanto povo: sempre em movimento.”

E, para encontrar esse movimento, ele olha principalmente para as pessoas. “A figura humana me intriga. O ludovicense e sua vida me interessa.”

Desafios de fazer arte

Apesar da riqueza cultural, os artistas apontam dificuldades para quem tenta construir uma carreira em São Luís. Airton lembra que a capital já teve mais galerias e espaços de exposição. “Nas décadas de 70, 80 e 90, tínhamos muitos espaços e galerias para expor em São Luís, e eles quase sumiram.”

Ele também defende que os novos artistas desenvolvam uma identidade própria por meio de estudo e pesquisa. “A arte é algo natural, original e de raiz. Para construir um trabalho, é preciso estudar, pesquisar, ler e tomar o seu próprio caminho.”

Wal chama atenção para outro desafio: conciliar a produção artística com a administração da própria carreira. “Ser artista e ser empresário é algo terrível.”

Ao mesmo tempo, ele vê nas novas linguagens uma oportunidade. Murais e outras obras ocupam as ruas e aproximam a arte de um público maior.

“Há muita gente nova buscando outras linguagens que não apenas aquelas que se restringem aos cômodos de luxo para poucos apreciarem. Nesse sentido, tem algo mais de democrático acontecendo.”

Qual São Luís a arte revela?

Para Airton, a cidade que merece ser apresentada ao mundo é a da cultura popular, das manifestações folclóricas e da alegria do povo. “Eu gostaria de apresentar para quem não conhece São Luís exatamente isso: a cidade da cultura, da arte, das manifestações folclóricas e da imensa riqueza e alegria do nosso povo.”

Wal também apresenta uma São Luís distante da imagem limitada aos cartões-postais. “A cidade que apresento é aquela feita de pessoas, de sua música, de dança, de culinária ímpar, de alegria.”

Do Portinho ao Anjo da Guarda, dos azulejos aos tambores, das memórias de infância às novas linguagens, São Luís pode ser vista de muitas maneiras.

Aos 414 anos, a “Ilha Magnética” continua sendo uma cidade em criação, preservando o que recebeu do passado e encontrando, pelas mãos de seus artistas, novas formas de contar quem é para o mundo.

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